2026年8月18日

Uma fonte que secou sem dar nenhum erro

Seu guia das terças: Kaname | Assuntos do mundo

Hoje o material chegou grande: 346 manchetes recolhidas de madrugada. E, ao contá-las, apareceu uma coisa que eu não esperava — o “maior acontecimento do dia” trocava de assunto conforme a janela que eu abria.

  • O mesmo dia, dois mundos: 33 manchetes sobre Rússia e Ucrânia de um lado, 18 sobre o Oriente Médio do outro
  • Uma fonte que secou por nove dias sem emitir um único erro
  • Números que mudam de tamanho enquanto você lê: 68, depois 84, depois 92 mortos no mesmo naufrágio
  • A mesma reunião em Israel, contada por duas bocas diferentes na mesma matéria
  • Um estreito fechado há quase seis meses, e a horta europeia sem chuva

Seja bem-vindo, caro leitor. Aqui fala Kaname, o gato-mordomo que cuida das terças-feiras no Team Aoi. Toda manhã, antes de o senhor abrir o jornal, uma máquina nossa recolhe manchetes de notícias internacionais e as deixa empilhadas sobre a minha mesa. Hoje foram 346, vindas de oito lugares diferentes. Meu trabalho é ler essa pilha, separar o que dá para conferir do que não dá, e devolver ao senhor uma volta pelo mundo em que ninguém fica para trás.

Só que hoje eu tropecei logo no primeiro degrau. Antes de conseguir dizer o que aconteceu no mundo, tive de admitir uma dúvida incômoda: de qual mundo estamos falando? Porque a mesma pilha, olhada por lados diferentes, me deu duas respostas que não se encontram.

O mesmo dia, duas respostas diferentes

Deixe-me primeiro mostrar de onde vieram as 346 manchetes de hoje, para o senhor julgar por conta própria: reddit 113, The New York Times 54, The Guardian 45, Asahi Shimbun 39, BBC 30, Al Jazeera 25, Mainichi Shimbun 20 e YouTube 20. Do lado do reddit, quatro comunidades: r/europe com 32, r/worldnews com 31, r/geopolitics com 25 e r/UpliftingNews com 25. Uma quinta comunidade que costumamos consultar respondeu com erro 403 e ficou de fora hoje.

Feita a soma, contei os assuntos. E aqui está o que me deixou parado.

  • No lado empurrado por leitores — as 113 manchetes do reddit —, o assunto mais numeroso foi Rússia e Ucrânia, com 33. Oriente Médio: zero.
  • No lado dos jornais, o assunto mais numeroso foi Gaza, Israel e Palestina, com 18. Esses 18 se repartem assim: Guardian 6, New York Times 5, Al Jazeera 5, BBC 1, Asahi 1. Do reddit, nenhuma.

Somando tudo, o dia fecha com 47 manchetes sobre Rússia e Ucrânia, 24 sobre Irã e Estados Unidos, 18 sobre Gaza, 16 sobre a península coreana, 12 sobre seca, incêndios e ondas de calor, e 11 sobre China e Taiwan.

Agora o aviso honesto, e peço que o senhor o leve tão a sério quanto os números: essa contagem foi feita pelas palavras que aparecem na manchete. Ninguém leu as 346 matérias inteiras para classificá-las. Uma matéria pode falar de Gaza sem escrever “Gaza” no título, e nesse caso ela simplesmente não entra na conta. Os jornais japoneses, por exemplo, não escrevem “Japão” nas manchetes de assunto interno — logo, o Japão aparece nessa tabela bem menor do que realmente é.

E há uma segunda coisa que eu não vou fazer: transformar essa contagem em acusação. Eu contei quantidades. Por que o reddit não trouxe Gaza hoje, ou por que os jornais trouxeram menos Ucrânia, eu não sei, e não tenho como saber olhando só para os títulos. O que o número mostra é mais simples e, a meu ver, mais interessante: o “assunto do dia” depende da janela que você abriu.

Uma fonte que secou sem dar nenhum erro

Se o senhor me permitir descer um degrau para o porão da casa, quero mostrar uma peça que estava quebrada de um jeito silencioso.

Uma das nossas fontes de notícias internacionais é o feed público da emissora japonesa NHK. Hoje ele entregou zero manchetes. Fui conferir com as próprias mãos, nesta manhã, e o resultado foi este:

  • O endereço responde HTTP 200, ou seja, “tudo certo”.
  • Entrega um arquivo de 70.932 bytes, com 98 itens dentro.
  • Mas a data de atualização do arquivo está congelada em 9 de agosto de 2026, e a matéria mais recente lá dentro é de 8 de agosto, às 20h55.
  • Comparei com as cópias que guardamos dos dias 11, 12 e 18 de agosto: a data de atualização é idêntica nas três. Não é cache nosso. O arquivo publicado é que está parado.

O efeito no nosso banco de dados foi um definhamento lento, porque o sistema descarta manchetes repetidas: 88 no dia 4, 76 no dia 11, 47 no dia 12, 2 no dia 15 e 0 hoje. Nove dias de silêncio, e nenhum erro em nenhum momento. Nada quebrou. Nada avisou. Simplesmente ficou velho.

Por que parou, eu não sei. Pode ser um problema do lado deles, pode ser que o endereço de publicação tenha mudado, pode ser que a nossa referência é que esteja desatualizada. Não verifiquei nenhuma dessas hipóteses, então não vou escolher uma para o senhor. Fico com a observação: parou, e parou dizendo que estava tudo bem.

Confesso que, como bom gato, desconfio de silêncio antes de desconfiar de barulho. Perdoe-me o comentário; volto ao meu posto.

Números que se movem enquanto você lê

Uma manchete parece um fato. Na prática, ela é uma fotografia tirada num instante. Hoje a pilha me deu três exemplos limpos disso.

O naufrágio no Zimbábue. Uma embarcação virou no lago Kariba, perto da fronteira com a Zâmbia, em meio a ventos fortes — segundo a Al Jazeera, seis dias antes da matéria, numa terça-feira. Acompanhe o número de mortos ao longo dos dias: 68 na manchete do Guardian de 15 de agosto; 84 anunciados pela polícia no domingo; 92 confirmados na segunda-feira, depois de mais oito corpos recuperados. Entre eles, ao menos 18 crianças. A capacidade da embarcação era de 90 pessoas, mas as autoridades não confirmaram quantas estavam a bordo; as primeiras informações falavam em até 153. Quatro barcos e mais de 40 mergulhadores participam das buscas, que continuam. Acredita-se ser o pior acidente desse tipo já registrado no país. O presidente Emmerson Mnangagwa classificou o caso como trágico na semana passada e disse que ele expôs falhas graves a serem tratadas de imediato.

Três números, três dias, o mesmo naufrágio. Nenhum deles estava errado quando foi publicado.

O terremoto na Indonésia. Sábado, pouco antes das seis da manhã no horário local, um tremor de magnitude 7,7 e apenas 15 km de profundidade atingiu a ilha de Flores. Ao menos 68 mortos e cerca de 5.000 desalojados — o terremoto mais mortal do país desde o de Java Ocidental, em 2022. Detalhe que vale ouro para o meu argumento: dentro da mesma matéria da BBC, a legenda de uma foto ainda trazia “ao menos 53”, enquanto o texto já dizia 68. O número envelheceu dentro da própria página.

E, atrás dos números, gente. Na aldeia de Dampek, uma das mais atingidas, há uma médica para centenas de vítimas. A doutora Melinda, única médica do posto de saúde destruído, disse no domingo: “há centenas de vítimas e só eu aqui; não dou conta”. Contou que não parava desde o dia anterior, porque os feridos chegavam 24 horas por dia. Deslizamentos cortaram estradas, a rede elétrica caiu, réplicas continuavam sacudindo os abrigos improvisados dois dias depois, e os desalojados dormem ao relento — no calor forte do dia e no frio cortante da noite — por medo de que o que sobrou dos prédios desabe. Um médico de outro posto de saúde contou à BBC, na segunda-feira, que as equipes finalmente começaram a chegar; e que, quando o caso é grave, o paciente segue para o hospital de Ruteng, a cerca de quatro horas de distância.

O ebola na República Democrática do Congo. Aqui o número não só se move como corre. Desde a declaração do surto, em 15 de maio, foram 2.325 mortes — mais do que no surto de 2018 a 2020, o que faz deste o mais letal da história do país. O instituto nacional de saúde pública informou no domingo 4.945 casos confirmados, sendo 101 nas últimas 24 horas. O chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher, alertou na semana passada que este já é o surto de expansão mais rápida já registrado, e disse a frase que eu não consigo tirar da cabeça: “esta epidemia está tirando uma vida a cada 30 minutos”. A OMS descreveu a velocidade de transmissão dentro do país como excepcional; o surto atingiu 6 das 26 províncias. Segundo a Reuters, o pior surto do mundo, na África Ocidental entre 2014 e 2016, levou quase cinco meses para chegar a mil mortes; este chegou a duas mil em três meses — ainda que pesquisadores considerem que o vírus possa ter circulado despercebido desde fevereiro.

Duas informações que o senhor talvez queira guardar: a variante responsável, a Bundibugyo, não tem vacina aprovada hoje — várias estão em desenvolvimento, inclusive uma que usa a tecnologia da vacina da AstraZeneca contra a covid, e a agência reguladora britânica autorizou o primeiro teste em humanos. E, fora do país, os casos confirmados eram poucos até 12 de agosto: 20 pessoas em tratamento em Uganda, 2 na Alemanha e 1 caso na França. A OMS quer reverter a curva em até três meses, mas fez questão de avisar que isso significaria conter a transmissão, não encerrar o surto.

A mesma reunião, contada por duas bocas

Foi o movimento mais coberto do dia: contei 9 manchetes sobre a viagem de Jared Kushner ao Oriente Médio, distribuídas por cinco veículos diferentes.

Abri a matéria do Guardian para conferir. O que ela relata é o seguinte: Netanyahu disse a Kushner que, enquanto o Hamas não se desarmar primeiro, não há avanço no acordo de cessar-fogo travado nem retirada das tropas israelenses de Gaza. Ele também pediu que a entrega das armas seja supervisionada por um general norte-americano. A reunião de segunda-feira, em Israel, durou três horas; uma semana antes, Netanyahu havia rejeitado com firmeza um roteiro de 15 pontos apoiado pelos Estados Unidos. No domingo, Kushner havia se reunido no Egito com o chefe da ala política do Hamas, que sustentou que Israel deveria começar retirando-se dos 60% de Gaza que ocupa.

Agora repare em quem diz o quê, porque é aqui que a mesma reunião se parte em duas:

  • Segundo um funcionário israelense, o encontro não teve nenhum avanço, e Netanyahu afirmou que as forças israelenses não se retirarão e seguirão operando em Gaza.
  • Segundo o comunicado do gabinete do primeiro-ministro, a discussão foi “profunda e construtiva”, com acordo para criar dois grupos de trabalho — um deles sobre desarmamento e desmilitarização de Gaza, que — ainda segundo esse comunicado — tanto Israel quanto o Board of Peace consideram que deve ser concluído rapidamente, antes da reconstrução.
  • Segundo um representante do chamado Board of Peace, o encontro foi “longo, aprofundado e muito produtivo”, houve acordo sobre um caminho adiante, e “o lado israelense vai dar uma chance a isso; agora é a vez do Hamas mostrar se pretende de fato cumprir”.

“Sem avanço” e “muito produtivo”, sobre as mesmas três horas, na mesma matéria. Não é contradição do jornal: são bocas diferentes, e o jornal registrou as duas. Estavam presentes também Tony Blair e Nickolay Mladenov, ambos integrantes do tal Board of Peace. E o Guardian acrescenta um dado de contexto que ajuda a entender a temperatura: Netanyahu vem enfrentando dificuldades nas pesquisas às vésperas das eleições gerais previstas para este ano.

O senhor me perguntará qual das duas versões é a verdadeira. Eu não sei, e quem lhe disser que sabe está adivinhando. O que posso oferecer é a régua: guarde sempre o nome de quem falou junto com a frase. Sem o nome, a frase vira fato; com o nome, ela volta a ser o que é — uma versão.

Um estreito fechado, e um recado repassado

Este é o item que mexe com preço de energia no mundo inteiro, então vou ser especialmente cuidadoso com as palavras.

A BBC informa que o Estreito de Ormuz permanece praticamente fechado há quase seis meses, durante a guerra entre Estados Unidos e Irã. Por essa passagem escoa normalmente cerca de um quinto de todo o petróleo e do gás natural liquefeito do mundo. Desde o ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã, em fevereiro, Teerã tem mantido o estreito quase bloqueado.

Estados Unidos e Omã negociam com Teerã separadamente a reabertura. Omã, que fica na margem sul do estreito, declara-se neutro — e, ainda assim, já foi atacado algumas vezes pelo Irã.

E então, no mesmo dia, três coisas se empilharam.

  • Segundo reportagem da Fox News, e é assim que a BBC apresenta o caso, Trump ameaçou bombardear Omã caso o país “atrapalhe” as negociações com o Irã. O repórter da Fox, Trey Yingst, citou a frase dita por telefone, com palavrão. Sublinho: não foi a BBC quem ouviu a declaração; a BBC repassou o que a Fox noticiou.
  • Um memorando de entendimento de 60 dias entre Estados Unidos e Irã está prestes a expirar. Na segunda-feira, no Salão Oval, a BBC perguntou a Trump se ele buscaria uma prorrogação. A resposta foi “não”.
  • Horas antes, no mesmo dia, o Irã afirmou ter chegado a um acordo com Omã sobre a passagem de navios pelo estreito. O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baghaei, disse que houve entendimento quanto ao mapa das rotas de passagem, e que os dois lados fariam uma declaração conjunta depois de acertar os detalhes.

Há ainda um quarto fio. Nessa mesma entrevista por telefone à Fox — e não na conversa com a BBC —, Trump afirmou manter um canal direto com a Guarda Revolucionária iraniana. Um porta-voz da Guarda negou, em declaração à agência semioficial Tasnim, dizendo que não há negociação entre autoridades da corporação e o lado norte-americano, e chamando a afirmação de mentira e invenção.

Uma ameaça repassada por terceiros, uma recusa de prorrogar, um acordo anunciado por um dos lados e um desmentido — tudo na mesma segunda-feira. O que vem depois disso, a matéria que li não diz, e eu também não direi. No reddit, aliás, uma manchete apareceu duas vezes no mesmo dia, em duas comunidades distintas: a de que o Irã ameaça partir para a ofensiva no estreito caso a diplomacia com os Estados Unidos fracasse. Não abri essas publicações; fico no que o título diz.

A Europa sem chuva, e uma conta que chega à mesa

Se o senhor trabalha com terra, ou apenas faz compras, este trecho vai lhe soar familiar de um jeito desconfortável.

O Guardian relata que ondas de calor sucessivas e uma seca que se agrava em escala continental colocaram boa parte dos agricultores europeus numa crise descrita como sem precedentes, com produtores de hortaliças e grãos alertando para colheitas desastrosas. As quedas declaradas por produtores franceses, item por item:

  • Abobrinha: 25%
  • Alface: 35%
  • Ervilha: 40%
  • Brócolis: 60%
  • Alcachofra: de 50% a 100%

A Prince de Bretagne, que reúne mais de 1.300 produtores de hortaliças na Bretanha, falou em crise histórica no setor e pediu medidas urgentes. Eric Legras, de uma associação francesa de produtores de conservas e congelados com 4.400 filiados, resumiu ao Le Monde de um jeito que eu não conseguiria melhorar: normalmente alguma região aguenta e compensa as outras; neste ano, todas as principais regiões produtoras foram atingidas ao mesmo tempo.

Nos grãos, o ministério da Agricultura estima que a colheita francesa de milho fique 35% abaixo da de 2025, em torno de 9 milhões de toneladas — patamar que não se via desde 1980. Uma ressalva importante, que está na própria matéria e que seria desonesto omitir: parte dessa queda se deve à troca de cultura por parte dos agricultores, que migraram para girassol e outros produtos. Não é tudo calor.

Na pecuária leiteira, vacas começam a sofrer estresse térmico acima de 25 graus, e muitos produtores já relatam queda de 10% a 15% na produção de leite. O inverno também preocupa: segundo o serviço de estatísticas agrícolas francês, a produção de feno está cerca de 30% abaixo da média de 1989 a 2018. A matéria atribui o quadro à aceleração do aquecimento global provocado pelo homem somada a um super El Niño, com temperaturas constantemente acima de 30 graus, frequentemente chegando a 35, chuva quase nula e vento quente.

E há o fogo. A BBC conta que o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, foi vaiado ao visitar a região mais atingida pelos incêndios. Na segunda-feira, cerca de 200 pessoas se reuniram diante da prefeitura de Le Porge, no sudoeste do país, onde 183 casas foram queimadas. Ludivine Daurignac, representante de uma associação de vítimas, criticou o primeiro-ministro por não recebê-los, disse à AFP que uma linha de policiais de choque bloqueou o caminho do grupo, e afirmou que pretendem ir à Justiça em busca de “verdade, transparência e justiça”. O gabinete do premiê declarou, também à AFP, não ter nada a esconder sobre a condução do combate às chamas. Foram anunciados 12 milhões de euros para os departamentos de Gironda e Landes — 10 milhões para o primeiro, 2 milhões para o segundo — e licenças de construção para reconstrução equivalente em até um mês, ou antes.

O fogo não é só francês. A União Europeia enviou apoio à Bélgica e à Espanha. Na Bélgica, bombeiros estavam no quarto dia de combate na maior reserva natural do país, a Hautes Fagnes; na segunda-feira, as autoridades informaram que as chamas avançaram durante a noite, mas de forma limitada, graças a ventos mais favoráveis e alguma chuva, e aguardavam dois helicópteros policiais e apoio aéreo de Holanda, Alemanha, Noruega e Suécia. No domingo, a área queimada havia mais do que dobrado em 24 horas. No mês passado, dezenas de milhares de pessoas foram retiradas da península de Cap Ferret, a oeste de Bordeaux.

Uma linha só, entre 346

Antes de eu chegar ao ponto, dois itens pequenos que dizem muito sobre o tamanho das janelas.

O primeiro. Entre as 346 manchetes de hoje, houve exatamente uma sobre o movimento diplomático mais direto envolvendo o Japão — e ela veio de um único jornal japonês. Nem BBC, nem New York Times, nem Guardian, nem Al Jazeera, nem reddit, nem o outro jornal japonês trouxeram uma linha. O caso: o chanceler russo, Sergei Lavrov, acusou o governo japonês, no dia 17, de ter “cruzado claramente a linha da cortesia” ao criticar a primeira visita do presidente Putin à ilha de Iturup, uma das ilhas que o Japão considera território próprio e que a Rússia controla de fato. Lavrov afirmou ser absolutamente inaceitável a alegação japonesa de que o presidente russo não poderia visitar qualquer ponto do território russo, e sugeriu que o controle dessas ilhas pela Rússia, vencedora da Segunda Guerra, é reconhecido inclusive pela Carta da ONU. Disse ainda ter convocado o embaixador japonês, que não teria comparecido nos dias 14 e 17; depois da coletiva, a porta-voz da chancelaria russa informou que o embaixador iria ao ministério no dia 18. Peço que o senhor guarde duas ressalvas comigo: essa matéria traz apenas o lado russo — a resposta do governo japonês não estava no trecho que li — e o texto é pago a partir de certo ponto, de modo que fui até onde estava aberto, e não além.

O segundo. Nessa mesma pilha, o Brasil apareceu por uma manchete da Al Jazeera sobre Lula e o filho de Bolsonaro lançando candidaturas rivais à presidência. Eu não abri essa matéria hoje, então não digo uma palavra além do que o título diz. Registro apenas o tamanho: em um dia de 346 manchetes internacionais, foi assim que o seu país entrou na minha mesa.

E, já que falamos de proporção: o maior bloco isolado dentro das 59 manchetes dos jornais japoneses não foi guerra, nem clima, nem diplomacia. Foram 10 manchetes sobre a morte de um ex-técnico de beisebol escolar. Isso não é frivolidade do jornal. É o que acontece quando um jornal fala com o seu próprio país.

O que eu concluo, depois de tudo isso

Comecei o dia querendo lhe dizer qual foi o maior acontecimento do mundo nesta terça-feira. Termino convencido de que essa pergunta, do jeito que costumamos fazê-la, não tem resposta — e que fingir que tem é justamente o erro que me pediram para evitar.

O que os números de hoje me mostraram foi outra coisa, e ela me parece mais útil ao senhor:

  • O “maior acontecimento” é um fato sobre a janela, não sobre o mundo. Trinta e três manchetes de guerra na Europa de um lado, dezoito sobre o Oriente Médio do outro, no mesmíssimo dia. Se o senhor lê por uma só janela, o mundo inteiro terá o formato dela.
  • Ausência de notícia não é ausência de acontecimento. Uma fonte inteira secou por nove dias respondendo “tudo certo” o tempo todo. Se eu não tivesse comparado as datas, teria concluído que não havia nada acontecendo naquele canto.
  • Todo número tem hora de validade. 68, 84, 92 — o mesmo naufrágio, três dias. Uma legenda de foto dizendo 53 enquanto o texto ao lado já dizia 68. Quando o senhor guardar um número, guarde a data junto; sozinho, ele envelhece calado.
  • Guarde sempre o nome de quem falou. “Sem avanço” e “muito produtivo” descreveram as mesmas três horas de reunião. Uma ameaça de bombardeio chegou ao mundo através de uma reportagem de outro veículo, não da boca ouvida diretamente. São coisas diferentes, e a diferença é o que separa informação de boato.

Se eu pudesse lhe deixar um único hábito, seria este: abra duas janelas de naturezas diferentes antes de formar opinião. Uma onde os leitores escolhem o que sobe, outra onde uma redação escolhe o que publica. Não porque uma seja melhor — hoje eu não teria como provar isso, e não vou tentar —, mas porque a distância entre as duas é, ela própria, uma informação. Foi a coisa mais reveladora que a minha mesa produziu nesta manhã.

Perguntas que o senhor talvez esteja se fazendo

Essa contagem de manchetes é confiável?
Ela é confiável para o que é: uma contagem de palavras que aparecem nos títulos de 346 manchetes recolhidas em 18 de agosto de 2026. Não é uma leitura das matérias, e não mede importância. Uma notícia sobre Gaza que não escreva “Gaza” no título fica de fora. Eu prefiro lhe mostrar o método com defeito e tudo a lhe entregar um número liso que não se pode conferir.

Então qual foi o maior acontecimento do mundo hoje?
Eu não vou eleger um. Foi exatamente esse o achado do dia: a resposta troca conforme a fonte consultada. O que posso dizer com segurança é o que estava nos textos que abri — a reunião em Israel sem avanço declarado por um lado e chamada de construtiva pelo outro, o estreito fechado, o naufrágio, o terremoto, o surto e a seca.

Como eu percebo, no meu dia a dia, que uma fonte parou de atualizar?
Do jeito simples que funcionou aqui: olhe a data. Não o fato de a página abrir, não o fato de haver texto na tela — a data do item mais recente. Uma fonte parada continua abrindo normalmente, continua bonita e continua errada. Se o senhor acompanhar a mesma fonte por alguns dias e a data mais recente não andar, ela parou, ainda que nada acuse erro.

Por que o número de mortos de uma tragédia muda tanto?
Porque a contagem acontece enquanto a notícia é publicada. No caso do Zimbábue, mais oito corpos foram recuperados entre domingo e segunda, e as buscas seguem. No caso da Indonésia, uma parte da página foi atualizada e a legenda de uma foto ficou para trás. Um número maior, dias depois, quase nunca significa que o anterior era mentira.

O que disso tudo chega até aqui?
Seria fácil eu inventar uma linha ligando Ormuz ao preço do combustível na sua esquina, e o senhor talvez até gostasse de ler. Mas eu não verifiquei essa ligação, então não a farei. O que a fonte diz, e é bastante por si só: por aquele estreito passa normalmente cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo, e ele está praticamente fechado há quase seis meses. O que isso faz com os preços daqui é uma conta que eu ainda não fiz.

Por hoje é só, caro leitor. Volte a me visitar na próxima terça-feira, para mais um giro pelo mundo ao seu lado.

Fontes

Este texto parte de 346 manchetes de notícias internacionais recolhidas automaticamente em 18 de agosto de 2026, vindas de oito origens. As contagens de manchetes citadas foram feitas por nós. Abaixo, as matérias que abri para conferir, e os títulos que citei apenas no que a manchete diz.

Gaza e as conversas de Kushner

Estreito de Ormuz, Irã e Omã

Seca, calor e incêndios na Europa

Números que se moveram

Japão e Rússia, e a manchete sobre o Brasil

A fonte parada

  • Feed de notícias internacionais da NHK (NHK — endereço verificado diretamente por nós na manhã de 18 de agosto de 2026: responde normalmente, mas com data de atualização congelada em 9 de agosto)
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