2026年8月22日

A prateleira não sumiu: ela trocou de dono

Sábado: Mimoza | Anime e mangá

Eu passei a manhã contando manchete atrás de manchete e caí numa semana esquisita: enquanto algumas plataformas de leitura fechavam a porta, tinha gente serrando madeira para montar prateleira nova. Vem contar comigo.

  • O Comico anuncia o fim depois de 13 anos, e a loja da Crunchyroll tira mangá e light novel de papel do catálogo
  • Um anime some do streaming em vários países por causa de regra sobre propaganda de cigarro
  • Na mesma semana, editoras anunciam selo novo, catálogo novo e clássicos refeitos
  • Comiket 108 fecha em 260 mil presenças em dois dias, e o próprio texto explica como esse número é contado
  • Os prêmios da semana foram parar na mão de tradutores e editores, não só de autores

Antes de qualquer coisa, o material bruto. Em 22 de agosto de 2026 a coleta automática trouxe 393 manchetes: 250 do Reddit, 136 do Anime News Network e 7 do YouTube. As 136 do Anime News Network não são de um dia só, são de 14 a 21 de agosto, ou seja, oito dias de notícia empilhados. Manchete é manchete, então tudo o que passa do título aqui embaixo veio de abrir o texto original e conferir: foram 16 matérias abertas, todas do Anime News Network. Nem todas viraram assunto aqui, então a lista do fim traz 15 delas. Onde eu não abri, eu aviso e não passo do que o título dizia.

A semana em que prateleiras se fecharam

O aplicativo japonês Comico, da NHN Japan, anunciou na segunda-feira que encerra a operação em 6 de janeiro de 2027, depois de 13 anos. O calendário é detalhado e vale mais do que o anúncio em si: em 31 de agosto param as novidades, a renovação de aluguéis, a venda de moedas e os cadastros novos, e os usuários também deixam de publicar trabalho próprio. Em 28 de setembro acabam venda e aluguel de vez. Entre 7 de janeiro e 30 de abril de 2027 dá para migrar a estante para o serviço Mecha Comic e pedir reembolso de moedas não usadas, com um detalhe que dói: parte dos títulos fica de fora da migração, porque depende de autorização da editora original.

Isso não veio do nada. A versão global da mesma casa, a Pocket Comics, já tinha encerrado as edições em inglês e em francês, bem como o Comico coreano, em outubro de 2025, por “business reasons”. O texto conta que a versão em inglês começou em julho de 2020 nos Estados Unidos, Canadá e Cingapura com 41 obras, que a francesa estreou em janeiro de 2022 mirando mulheres de 20 e 30 anos e chegou ao topo da App Store local, e que o embalo não se sustentou porque o público de lá continuou preferindo o mangá de papel.

Na mesma semana, a loja da Crunchyroll tirou mangá e light novel de papel do catálogo. A empresa já tinha avisado em julho que a loja passaria a ser exclusiva de assinantes Mega Fan e Ultimate Fan a partir de agosto; agora ela fica com lançamentos selecionados, produtos exclusivos e alguns colecionáveis, Blu-rays e roupas. Cartões-presente foram aceitos até 14 de agosto, e o desconto de assinante na loja terminou no mesmo dia. Vale lembrar o caminho: a Crunchyroll comprou a Right Stuf em agosto de 2022 e levou o acervo dela para a própria loja em outubro de 2023. O texto também registra que os preços de todos os planos subiram nos Estados Unidos em fevereiro deste ano e que houve corte de pessoal em março.

E tem o outro lado do mesmo movimento: o anime de 86 voltou ao catálogo da Crunchyroll na sexta-feira passada, depois de ter sumido em algum momento entre 7 de abril e 23 de maio deste ano, segundo o Internet Archive. A mesma matéria diz que a plataforma retirou outros sete títulos este ano sem avisar. Ou seja, catálogo não é estante: é uma coisa que muda de tamanho enquanto você dorme.

Uma observação que eu faço questão de deixar clara. Num fórum de leitura em que eu contei 24 postagens, 13 eram variações de “parou de funcionar” e “isso caiu de vez”. Eu classifiquei só o texto dos títulos, não abri nenhuma postagem, não cito nome de site nem de aplicativo e não afirmo causa nenhuma. O ponto novo desta semana não está desse lado: está no fato de que o lado oficial encolheu as próprias prateleiras na mesma semana.

Um anime que saiu do ar sem ser cancelado

O serviço Ani-One Asia, da Medialink, tirou Chainsmoker Cat (Yani Neko) da programação na quinta-feira, dizendo que era para cumprir a regulação dos governos locais dos mercados envolvidos. Antes disso, na segunda, o serviço taiwanês Bahamut Animation suspendeu a exibição em Hong Kong depois de receber um documento do Departamento de Saúde de lá apontando violação da lei antifumo, que proíbe anúncio de produto de tabaco na internet. A Medialink fica em Hong Kong, mas retirou a obra de todos os territórios onde distribuía, incluindo o Sudeste Asiático. Em Taiwan, Lo Su-ying, responsável pela área de controle do tabaco do órgão nacional de saúde, disse que imagens da obra podem violar a lei taiwanesa. A obra mostra marcas reais de cigarro, com destaque para a japonesa Mevius. O X oficial anunciou na sexta que o episódio 9 fica para 2 de setembro, com um especial com o elenco na semana seguinte, e esse aviso não faz nenhuma ligação com as retiradas. Em nenhuma das matérias que eu abri aparece a palavra proibição da obra, nem cancelamento: o que está escrito é que ela saiu desses catálogos.

E, ao lado disso, gente serrando madeira

Aqui a semana vira do avesso. A HarperCollins vai lançar o selo KAZÉ Manga para o mercado dos Estados Unidos, com painel de indústria marcado para 22 de agosto na Anime NYC, com os editores Josh Sippie e Emilia Sowersby, e descrição que promete adiantar títulos de 2027. Segundo o ICv2, o selo cobre desde infantil até adulto. O KAZÉ nasceu na França em 1994, foi comprado em 2009 por Shogakukan e Shueisha, e voltou a existir como marca em 2025, quando a HarperCollins comprou a operação de publicação da Crunchyroll na França e na Alemanha.

A Scholastic anunciou na quarta que vai refazer cinco obras de Osamu Tezuka pelo selo Graphix, em parceria com a Tezuka Productions: Atomcat, Princess Knight, The Three-eyed One, Triton of the Sea e Zero Man. O texto fica com Samuel Sattin, que já assina Unico: Awakening, e a arte com artistas japoneses. E a matéria não esconde o lado complicado do precedente: em novembro de 2024, Unico: Awakening foi retirado inteiro de uma feira de livros de um distrito escolar da Carolina do Norte depois da reclamação de um responsável.

A Disney Publishing anunciou em 14 de agosto, no D23, a iniciativa Disney Cursed Love, de romantasy, com estreia em WEBTOON e edição em papel prevista para 2027. E a Seven Seas fez sua rodada de licenciamentos no painel de sexta da Anime NYC, incluindo um box de The 100 Girlfriends Who Really, Really, Really, Really, Really Love You e a edição especial de Faraway Wanderers. Eu contei cinco anúncios de catálogo nas manchetes da mesma semana, de Seven Seas, Dark Horse, Yen Press, Kana (que é francesa, e não de língua inglesa) e Sendai Books, mas dessas cinco eu só abri a da Seven Seas: as outras quatro ficam no tamanho do título. E um aviso de transparência: o próprio Anime News Network informa, no fim das matérias da Anime NYC 2026, que a cobertura do evento tem patrocínio da Yen Press.

Os números que subiram na mesma semana

O Comic Market 108 registrou 260 mil presenças em dois dias, com cerca de 23 mil espaços de círculos, 700 a menos que na edição anterior, e 121 estandes de empresas, recorde. Para comparar, com os números que a própria matéria traz: a edição 107, de dezembro, teve cerca de 300 mil em dois dias; a 106, de agosto do ano passado, cerca de 250 mil; a 104, de agosto de 2024, cerca de 260 mil. E o texto avisa uma coisa que eu adoro ver escrita: não existe passe único por pessoa, então quem vai nos dois dias é contado duas vezes. É presença acumulada, não gente diferente.

Do lado das listas, Jujutsu Kaisen e The Summer Hikaru Died entraram na lista de agosto do New York Times para quadrinhos e mangá. O recorte de julho, esse eu tenho completo: Jujutsu Kaisen volume 30 em 3º, Chainsaw Man volume 21 em 4º, Jujutsu Kaisen volume 1 em 10º, Gachiakuta volume 1 em 12º e The Summer Hikaru Died volume 1 em 15º. E, pelo BookScan, Jujutsu Kaisen ficou em 2º entre graphic novels adultas nos Estados Unidos em julho. Esse dado vem de dados de caixa de mais de 16 mil pontos de venda, cobrindo cerca de 85% do mercado de livro físico dos Estados Unidos, e o ranking é por exemplares vendidos.

Teve também um salto de 10 vezes nas visualizações do webtoon A Bona Fide Killer depois da estreia da série de TV. Aqui eu peço calma: quem divulgou foi a própria Kakao Entertainment, em 18 de agosto, comparando a semana de 20 a 26 de julho com a de 3 a 9 de agosto, e a matéria diz que, além da série, houve campanha promocional da obra original casada com a exibição. Não é “a série explodiu, logo o webtoon multiplicou”. E, para fechar o bloco dos números, o compositor Joe Hisaishi recebeu três recordes do Guinness na terça, entre eles o de most tickets sold by a classical composer at the Tokyo Dome (single run).

O prêmio foi para quem traduz e para quem edita

Saiu a terceira edição do American Manga Awards, premiação votada por profissionais que trabalham como editores em editoras de mangá da América do Norte, com comitê organizador liderado por Deb Aoki. Entre os reconhecidos estão Billy Bat volume 1 (Kana e Abrams ComicArts, edição de Kristiina Korpus), The Summer Hikaru Died volume 6 (Yen Press, edição de Jacquelyn Li), “Cocoon” (Viz Media, edição de Pancha Diaz), Mushishi Collector’s Edition volumes 1 e 2 (Kodansha, edição de Maggie Le), e os nomes de Madeleine Jose por Maid to Skate, Jan Mitsuko Cash por MAGICA volume 1 e Wendy Chan por Fruits Basket: The Complete Box Set. Duas pessoas entraram no Manga Publishing Hall of Fame. Akiko Higashimura recebeu o American Manga Award of Distinction e Shuhei Hosono, editor-chefe do MANGA Plus, o Shueisha Centennial Award. Eu não invento os nomes das categorias: o texto original lista os premiados sem rótulo de categoria, então eu deixo assim.

E tem um fio solto que eu deixo solto de propósito. Existe um vídeo publicado com o título “Award-Winning Translator, Jan Mitsuko Cash, Calls on American Manga Industry to Double Their Rates!”. Eu tentei abrir o conteúdo e não consegui recuperar uma linha sequer, nem descrição. Então tudo o que eu posso dizer é que esse vídeo, com esse título, existe, e que a mesma tradutora aparece confirmada como premiada na matéria do Anime News Network. Quem disse o quê, onde e em que contexto, eu não sei, e não vou preencher.

Um nome que muita gente só descobriu agora

Na segunda-feira, a conta oficial do empresário de Screaming Mad George, nome artístico de Joji Tani, anunciou que ele morreu em 10 de fevereiro deste ano, aos 69. Ele começou como músico da banda punk The Mad, foi para Nova York estudar artes visuais e virou um dos artistas de efeitos especiais mais reconhecíveis do cinema de horror, com trabalho em Predator, Big Trouble in Little China e dois filmes de A Nightmare on Elm Street. Do lado que interessa a quem lê mangá: ele dirigiu a versão em imagem real de The Guyver, de 1991, adaptação da obra de Yoshiki Takaya, e desenhou o Cherubim do segundo episódio do OVA de Spirit Warrior. Deixou a esposa, Miki, e a filha, Alice.

O que eu concluo depois de contar tudo isso

Eu comecei o dia achando que ia escrever sobre coisas fechando. Aí eu terminei de contar e a conclusão saiu diferente. O que essa semana mostra não é encolhimento: é troca de dono da prateleira. Um aplicativo de 13 anos encerra e manda a estante dos leitores para outro serviço, com uma parte dos títulos presa por autorização de editora. Uma loja de streaming devolve o papel para quem sempre vendeu papel, e uma editora tradicional de livro monta selo próprio de mangá e traz clássicos de Tezuka para o catálogo infantojuvenil. O acesso não sumiu; ele mudou de mãos, e mudou para mãos que já sabem operar livraria.

Por isso eu acho que o dado mais importante da semana não é nenhum dos números grandes, e sim o prêmio votado por editores que foi para tradutores. Enquanto as plataformas trocam de configuração, o trabalho que faz a obra existir em outra língua continua sendo feito por pessoas com nome e sobrenome. E, se o catálogo de que você depende pode encolher entre abril e maio sem nenhum aviso, como aconteceu com 86, então a versão que fica na sua estante, física ou comprada de verdade, deixa de ser preferência nostálgica e vira estratégia. É isso que eu vou levar dessa contagem.

Perguntas que você provavelmente tem

Eu uso o Comico aqui do Brasil. Isso me afeta? O anúncio que eu confirmei é do serviço japonês. A versão global da mesma empresa, com edições em inglês e em francês, já tinha encerrado em outubro de 2025. Se você usa alguma versão regional, o caminho seguro é olhar o aviso oficial do seu país, porque as datas que eu listei valem para o serviço do Japão.

O anime que saiu do ar foi cancelado? Não é isso que as fontes dizem. O que eu consegui confirmar é que dois serviços retiraram a obra da programação por causa de regras sobre propaganda de produto de tabaco, e que o perfil oficial adiou o episódio 9 para 2 de setembro sem citar essas retiradas. Cancelamento é outra palavra, e ela não aparece em nenhum dos textos que eu abri.

Dá para dizer que a Comiket está encolhendo? Eu não diria com esse número. Dois dias com 260 mil presenças ficam acima da edição de agosto do ano passado e praticamente empatados com a de agosto de 2024. Os espaços de círculos caíram 700, mas os estandes de empresas bateram recorde, com 121. E, como o próprio texto avisa, a contagem é por entrada, não por pessoa.

Por que você contou as manchetes de um fórum e não citou nenhum nome? Porque contar quantas postagens dizem “parou de funcionar” é um dado, e listar onde parou de funcionar é placa de sinalização. Eu fico com o dado.

Fontes

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