
Dezessete se despedem, uma volta: a semana que eu contei
Sábado: Mimoza | Anime e mangá
Bom dia! Eu sentei para ler as manchetes da semana e esbarrei numa coisa estranha: tinha muito mais gente se despedindo do que voltando.
- Eu contei quantas obras estavam terminando ou parando — e quantas estavam voltando
- A parte da semana que eu li em silêncio: cansaço, doença e duas despedidas
- Três sites piratas de webtoon derrubados, com a INTERPOL no meio da história
- O novo filme do Makoto Shinkai sai “no mundo todo, menos boa parte da Ásia” — repare de que lado o Brasil está
- E o outro lado da balança: um Emmy, 70 anos de Toei e a obra que voltou do hiato
Antes de tudo, o combinado de sempre: este texto nasceu de 414 manchetes que a nossa máquina coletou automaticamente em 15 de agosto de 2026, vindas de quatro lugares diferentes (245 do Reddit, 161 da Anime News Network, 6 do YouTube e 2 do AniList). Eu não leio tudo de olho fechado. Eu abro as matérias, confiro quem falou o quê, e quando não dá para confirmar, eu digo que não deu. Combinado?
Eu comecei o dia contando despedidas
As 161 manchetes da Anime News Network não são de um dia só: elas cobrem oito dias, de 7 a 14 de agosto. Isso importa para o que eu vou falar agora, então guarde esse detalhe.
A máquina passou por essas 161 e separou em duas pilhas, e eu conferi a lista que saiu. Pilha A: obras terminando, entrando no arco final ou anunciando o último capítulo. Pilha B: obras parando na metade, entrando em pausa (aquilo que o pessoal chama de “hiato”, ou seja, a publicação suspensa por tempo indeterminado). E aí eu abri uma terceira pilha, que era para ser a mais fácil: obras voltando.
Deu 14 na pilha A. Deu 3 na pilha B. E deu 1 na pilha das que voltaram.
Dezessete contra um. Eu mandei rodar de novo porque achei que tinha algum erro, e não tinha. Na pilha A tem de tudo: um mangá que encerra no volume 19, uma série que já anunciou o capítulo final para 9 de setembro, uma light novel que entrou no arco derradeiro no volume 13, uma obra que termina no próximo capítulo. Coisas que não têm nada a ver umas com as outras, publicadas em editoras diferentes, caindo na mesma semana.
Na pilha B, duas eu abri para entender melhor. Battle in 5 Seconds parou por causa da saúde de quem faz a arte, Miyakokasiwa — o roteiro é de Harawata. E aqui vem o detalhe que a manchete não conta: essa obra já tinha parado em outubro de 2024, quando foi explicado que havia questões de saúde e pessoais desde o começo daquele ano, e que a história estava perto do fim. A publicação tinha voltado em janeiro de 2025. O volume 31 saiu em 10 de julho. Ou seja, não é um susto novo — é um cansaço que já vinha sendo carregado.
A outra é Skull Dragon’s Precious Daughter, de Yukishiro, que parou por meio ano. O motivo não estava na parte da matéria que eu li, então eu não vou inventar um. O que eu sei é que a obra está com anime para TV em produção.
Agora, honestidade: 17 em 161 dá mais ou menos uma manchete em cada dez, ao longo de oito dias. Não é “o mangá está acabando”. É bem menos dramático do que a minha primeira reação. Mas tem uma assimetria aí que eu não consigo desligar da cabeça, e eu volto nela no fim.
A parte da semana que eu li em silêncio
Essa parte eu escrevo com a voz mais baixa.
Hiroya Oku, o criador de GANTZ, disse que pretende se aposentar depois de terminar Kanrekihime. Pretende — ainda não aconteceu, e eu faço questão de manter o tempo verbal certo. Nas palavras dele: “a vontade de criar ainda está aí. Mas pensar uma história, desenhar, e manter esse processo em pé — tudo isso exige uma quantidade enorme de energia e resistência física. Eu simplesmente não tenho mais essa energia”. Ele mesmo chama Kanrekihime de shūkatsu, a palavra japonesa para “preparar o próprio encerramento”, e disse que os idosos da obra refletem ele e a equipe dele. GANTZ foi publicado de 2000 a 2013. Kanrekihime começou em dezembro de 2025 e teve o primeiro volume em 29 de maio.
Ryuta Amazume revelou em 6 de agosto um diagnóstico de câncer. Disse que vai se tratar buscando a cura completa e que vai ficar um tempo fora das publicações comerciais. A série que estava em andamento já havia se encerrado em 27 de julho, antes do anúncio, e o volume final sai em 14 de setembro. A matéria original não atribui gênero ao falar de Amazume, então eu também não vou atribuir.
Yōko Umezu, que desenhava Vermeil in Gold (roteiro de Kōta Amana), morreu em 7 de julho, de infarto cerebral. A redação da revista Monthly Shonen Gangan, da Square Enix, anunciou na quarta-feira. O funeral foi reservado à família. A obra se encerrou com o capítulo da edição de julho, publicada em 12 de junho, e a serialização tinha começado em agosto de 2018 — o volume 11 saiu em 11 de junho. O anime foi ao ar em 2022. Umezu também assinava Minidura, derivado de Durarara!!, entre 2013 e 2015.
E Katsushi Murakami, designer mecânico, morreu aos 83 anos. Ele entrou na Bandai em 1961 e depois foi para a Popy, e é conhecido pelo design dos robôs de brinquedo da linha Chogokin — o nome vem do metal fictício que compõe o robô de Mazinger Z. Ele desenhou mecha para Reideen the Brave, Gold Lightan, Space Adventure Cobra e vários outros. A data e a causa da morte não estavam na parte que eu li, então elas não entram aqui.
Três sites piratas caíram — e, na mesma semana, um fórum inteiro estava reclamando que nada abria
Em 13 de agosto, a Naver WEBTOON anunciou que três sites em inglês que distribuíam webtoons e mangás ilegalmente foram derrubados. A operação envolveu o Ministério da Cultura, Esporte e Turismo da Coreia do Sul, a INTERPOL e forças de segurança do norte da África. Os operadores foram presos.
Os números que a matéria traz são grandes: os três sites eram do mesmo grupo, operavam a partir do norte da África mirando leitores dos Estados Unidos e da Europa, e escaneavam e traduziam sem autorização mais de 300 obras. Segundo dados da Similarweb citados na matéria, os três somados passavam de 130 milhões de acessos por ano, e de 20 milhões só nos últimos três meses. Os nomes dos sites não foram divulgados. Vários endereços antigos tinham sido fundidos em domínios novos, o que foi lido como tentativa de escapar da fiscalização, e a equipe antipirataria da empresa acompanhou e reuniu as provas antes de entregá-las às autoridades.
Agora vem a parte que só apareceu porque a nossa coleta pega o Reddit também. Existe um fórum dedicado a esse assunto, e vieram 24 publicações dele nessa leva. Eu li as 24. Dezesseis eram gente pedindo socorro: não abre, não carrega, sumiu, alguém sabe o que houve. E oito dessas dezesseis eram especificamente “está fora do ar” ou “o aplicativo parou de funcionar”. Eu não vou escrever nome de site nem de aplicativo aqui, porque isso viraria manual de uso, e não é isso que eu estou fazendo.
Duas ressalvas honestas, porque sem elas o número engana. Primeira: aquelas 24 publicações são um teto da nossa coleta, não uma medida de popularidade — a máquina pega uma quantidade parecida de cada fórum. A proporção dentro delas (16 em 24) é o que vale. Segunda: eu não estou dizendo que uma coisa causou a outra. Eu não sei. Eu só sei que, na mesma semana, uma operação internacional foi anunciada de um lado e do outro lado tinha um fórum inteiro batendo em porta fechada. Ver as duas coisas lado a lado já me diz alguma coisa sobre o tamanho dessa engrenagem.
“No mundo todo, menos boa parte da Ásia” — repare de que lado o Brasil está
Essa manchete me fez rir de surpresa. A Crunchyroll vai lançar o novo filme do Makoto Shinkai globalmente, excluindo boa parte da Ásia.
Detalhe delicioso: a empresa não revelou os detalhes do filme. Nem o título. Shinkai tinha dito em novembro de 2025, nas redes, que estava trabalhando num novo filme com colegas em quem confia, mas que ainda não podia anunciar formalmente. A própria matéria carrega uma nota dizendo que foi modificada depois de publicada, então eu não vou empilhar certezas em cima disso. Quais países exatamente entram nessa “boa parte da Ásia” não estava na parte que eu li, e eu não vou chutar nomes.
Mas repare no que sobra para você e para mim. A frase “mundo todo, menos boa parte da Ásia” põe o Brasil do lado de dentro. Não do lado do “espera seis meses e depois a gente vê”. Do lado de dentro.
Para dar escala: Suzume, o filme anterior dele, estreou em primeiro lugar no Japão em novembro de 2022, chegou à América do Norte em abril de 2023, fez 14,79 bilhões de ienes (cerca de 105,3 milhões de dólares) na bilheteria japonesa, e o acumulado mundial no Box Office Mojo é de 221.184.739 dólares. Ou seja: mais da metade do dinheiro veio de fora do Japão. Quando um distribuidor decide onde você entra na fila, ele está olhando exatamente para esse tipo de número. E a fila mudou.
E o outro lado da balança, que também estava cheio
Porque seria muito fácil fechar este texto dizendo “que semana triste”, e seria falso.
Takashi Okazaki, designer de personagens, ganhou um Emmy pelo curta The Duel: Payback, de Star Wars: Visions. Foi numa categoria julgada por um júri de profissionais da área — o nome exato da categoria não estava no que eu conferi, então eu não invento. A entrega acontece em 6 de setembro, no Peacock Theater em Los Angeles, e uma versão editada vai ao ar em 12 de setembro pela FXX. O curta foi dirigido por Takanobu Mizuno e produzido por Kamikaze Douga e ANIMA, e é continuação do primeiro The Duel, no qual Okazaki também assinou o design. E tem mais: o curta “Black”, de Shinya Ōhira e do estúdio david production, do mesmo Volume 3, está indicado a Outstanding Animated Program — indicado, não premiado. O resultado sai em 14 de setembro.
A Toei Animation completou 70 anos em 31 de julho e soltou um vídeo especial que percorre década por década, além de um site comemorativo com uma mensagem do presidente Katsuhiro Takagi. A empresa começou a operar oficialmente com esse nome em 31 de julho de 1956; o primeiro longa foi Hakujaden, em 1958, e a primeira produção para TV foi Ōkami Shōnen Ken, em 1963. Depois disso vieram Dragon Ball, ONE PIECE, Precure, Sailor Moon, SLAM DUNK, Digimon. Setenta anos e ainda estreando coisa nova neste ano.
No ranking mensal da Oricon referente a julho de 2026 (mensal, não semanal), o volume 115 de ONE PIECE, de Eiichiro Oda, ficou em primeiro com 1.020.422 exemplares. Em segundo veio HUNTER×HUNTER volume 39, de Yoshihiro Togashi, primeiro volume em 22 meses, com a serialização retomada em 29 de junho. Em terceiro, The Apothecary Diaries volume 17. E Tower Dungeon, de Tsutomu Nihei, passou de 1 milhão de exemplares em circulação no mundo, segundo anúncio feito em 6 de agosto pela conta oficial do editor responsável — “em circulação” quer dizer tiragem distribuída, não venda efetiva, e essa diferença importa. Do lado dos games, foi anunciado que Pokémon Pokopia passou de 5 milhões de unidades vendidas no mundo.
E a tal obra que voltou. A única. É Cat Companions Maruru and Hachi, de Sonoda, que estava parada desde janeiro de 2025 por motivos de saúde e retomou a publicação. É a história de um gato de estimação que se perdeu e de um gato de rua durão que se juntam para sobreviver na cidade. No ano passado, ela levou o grande prêmio na divisão Comic do 54º Japan Cartoonists Association Awards.
Então, a conclusão a que eu cheguei depois de contar tudo isso. A assimetria de 17 para 1 não é um retrato do estado da indústria. É um retrato de como a notícia funciona: fim tem data, tem anúncio, tem comunicado da redação. Continuar não gera manchete. Nenhuma revista publica “a obra X saiu normalmente esta semana”, e é exatamente isso que acontece com a esmagadora maioria delas. O que eu levo dessa semana é mais simples e mais concreto: se tem uma obra que você acompanha e gosta, leia agora, compre o volume agora, fale dela agora. E olhe o peso que uma volta só carregou — uma obra sobre dois gatos sobrevivendo na rua conseguiu segurar sozinha o outro lado da balança. Isso não é pouco!
Perguntas rápidas
“Hiato” quer dizer que a obra foi cancelada? Não. Hiato é pausa na publicação, geralmente sem data de retorno definida. Das três pausas desta leva, uma tem prazo declarado (meio ano) e as outras duas não tiveram prazo informado na parte que eu conferi.
Dá para saber o título do novo filme do Shinkai? Não. A Crunchyroll não revelou os detalhes, título incluído. Qualquer nome circulando por aí não veio desse anúncio.
“Um milhão de exemplares” significa um milhão de cópias vendidas? Não necessariamente. O termo usado é “em circulação”, que é a tiragem colocada no mercado. É um número grande e legítimo, mas não é o mesmo que venda no caixa.
Por que você não citou os nomes dos sites piratas? Porque virar guia de acesso não é o meu trabalho. E, no caso da operação da Naver WEBTOON, os nomes nem foram divulgados oficialmente.
Esses números de 17 e 1 valem para o mangá inteiro? Não. Eles valem para as 161 manchetes de uma única fonte, cobrindo oito dias. É uma amostra, não um censo. Eu conto o que dá para contar e digo o tamanho da caixa.
Fontes
- Naver WEBTOON Cooperates With Korea MCST, INTERPOL to Take Down 3 English Webtoon/Manga Piracy Sites (Anime News Network)
- Character Designer Takashi Okazaki Wins Emmy for Star Wars: Visions’ The Duel: Payback Anime Short (Anime News Network)
- Gantz Creator Hiroya Oku Plans to Retire After Finishing Kanrekihime Manga (Anime News Network)
- Nana & Kaoru Manga Creator Ryuta Amazume Reveals Cancer Diagnosis (Anime News Network)
- Vermeil in Gold Manga Artist Yōko Umezu Dies (Anime News Network)
- Mechanical Designer Katsushi Murakami Dies at 83 (Anime News Network)
- Battle in 5 Seconds Goes on Hiatus Due to Author’s Poor Health (Anime News Network)
- Skull Dragon’s Precious Daughter Manga Goes on Hiatus for Half a Year (Anime News Network)
- Cat Companions Maruru and Hachi Manga Returns From Hiatus (Anime News Network)
- Crunchyroll to Release Makoto Shinkai’s New Film Globally, Excluding Most of Asia (Anime News Network)
- One Piece Manga Tops Oricon Monthly Comic Ranking for July 2026 (Anime News Network)
- Tsutomu Nihei’s Tower Dungeon Manga Tops 1 Million in Circulation Globally (Anime News Network)
- Pokémon Pokopia Game Crosses 5 Million Units Sold Worldwide (Anime News Network)
- Toei Animation Marks 70th Anniversary With Special Video (Anime News Network)