2026年7月30日

O que significa ser visto, hoje

Quinta-feira: Shizuka|a edição de estilo de vida

Hoje de manhã, entre óculos que gravam sem avisar e aplicativos que pedem seu rosto para confirmar quem você é, fiquei pensando: será que estamos tentando ser vistos, ou só tentando não ser vigiados?

  • Instagram começa a banir vídeos de assédio feitos com óculos inteligentes
  • Como a Apple pode tentar tornar seus óculos inteligentes menos invasivos
  • Você já pode verificar sua conta do Facebook com um vídeo selfie
  • O novo aplicativo da Ultrahuman corrige quase tudo que incomodava no antigo
  • Os filhos estão, mais ou menos, bem — uma coluna sobre adultos que ainda moram com os pais

Este texto nasce das 112 manchetes reunidas automaticamente nesta quinta-feira, 30 de julho de 2026. Nove delas foram abertas e conferidas na fonte original antes de eu escrever — são as que sustentam os quatro assuntos de hoje. As outras 103 entram só como parte da paisagem, e quinze delas eram apenas ofertas de produtos. No total do dia, quatro manchetes tratavam de óculos inteligentes e duas de verificação por vídeo: é daí que vem quase tudo o que li hoje. Nem o Reddit nem o YouTube trouxeram nada — os dois canais ficaram calados esta manhã.

Quem está olhando você com os óculos

Adam Mosseri, o responsável pelo Instagram, publicou um story na própria rede dizendo que a plataforma vai remover conteúdos gravados com óculos inteligentes quando servirem para assediar ou explorar pessoas sem que elas saibam — os chamados vídeos de “cantada” que viraram moda entre quem usa esse tipo de óculos. Antes disso, segundo o Business Insider, a Meta já havia removido duas contas com mais de um milhão de seguidores por vídeos desse tipo; um porta-voz da empresa confirmou que a remoção se deu pela política de assédio que já existia, não por uma regra nova. O problema é que não existe um jeito confiável de automatizar essa detecção: quase tudo depende de intenção e contexto, e por isso a moderação continua dependendo de denúncias — muitas vezes feitas pela própria pessoa filmada, quando ela descobre, o que às vezes já é tarde demais.

Os óculos da Meta têm uma luzinha na frente que acende quando estão gravando, pensada como um aviso discreto para quem está por perto. Só que ela pode ser desativada, e esse detalhe tem sido motivo de reclamação constante desde o lançamento. Enquanto isso, um aplicativo chamado Antizuck promete o oposto: detectar, pelo sinal de Bluetooth, se há óculos da Meta, da Snap (os Spectacles) ou de outras marcas por perto. Custa 2,99 dólares (preço nos Estados Unidos, como todos os valores deste texto), não pede conta nem e-mail e não envia dados para fora do celular — mas, na prática, só identifica os óculos da Meta quando estão sendo ligados, emparelhados ou carregados, não quando já estão gravando alguém no meio da rua. É um alívio parcial, do tipo que promete mais segurança do que de fato entrega.

A Apple, segundo uma reportagem da Bloomberg assinada por Mark Gurman, ainda nem anunciou seus próprios óculos — a expectativa é que isso aconteça só em 2027 — mas estaria estudando uma câmera que não tira foto nem grava vídeo: serviria só para alimentar a inteligência artificial do aparelho, sem opção de compartilhar nada. Se isso se confirmar, é uma resposta direta a um mal-estar que já tem nome: gente chamando os óculos da Meta de “óculos de pervertido”, óculos banidos em um número cada vez maior de lugares, e uma cantora, Lorde, dizendo publicamente que não os acha “sexy” de jeito nenhum.

Provar que você existe, com o rosto

No mesmo período, duas empresas grandes decidiram que a prova mais confiável de que você é você é o seu próprio rosto em vídeo. O Google está testando, aos poucos, uma opção de recuperação de conta por selfie em vídeo: se você for bloqueado, grava um vídeo curto, que é comparado ao que já está salvo. A empresa promete que o vídeo fica criptografado e que você pode apagá-lo quando quiser — mas também admite, no próprio comunicado, que pode usar esses dados para “melhorar o reconhecimento facial, a estimativa de idade e outros” fins, caso você autorize.

O Facebook fez algo parecido, só que ao contrário: em vez de recuperar uma conta perdida, é para ganhar um selo branco de verificação, mostrando que existe uma pessoa real por trás do perfil (diferente do selo azul pago do Meta Verified). Para quem tem acesso — o recurso começou em alguns países antes de chegar ao resto do mundo, e vale para maiores de 18 anos com a conta em boa situação — basta gravar uma selfie em vídeo, que é comparada às fotos já publicadas no perfil, usando reconhecimento facial. A plataforma diz que guarda esse vídeo por até 30 dias depois da verificação, que é feita uma única vez — mas não deixa muito claro o que acontece com ele durante esse tempo, e vale lembrar que a Meta já usou dados de usuários para treinar suas próprias ferramentas de inteligência artificial antes.

Achei bonito, de um jeito meio estranho, que no mesmo dia em que um aplicativo promete te avisar se alguém está te filmando sem permissão, duas outras empresas estejam pedindo, com toda a educação, que você mesmo entregue seu rosto — de livre e espontânea vontade, dizem elas — para provar que é de verdade.

O corpo virou uma planilha que respira

Quem usa anel ou pulseira inteligente sabe: às vezes a quantidade de números vira mais um peso do que um cuidado. Quem assina a resenha do anel da Ultrahuman conta que o que mais incomodava, na versão antiga do aplicativo, era uma métrica chamada “eliminação de resíduos cerebrais” — como se isso fosse algo mensurável ou controlável. Segundo quem testou, a atualização mais recente, batizada de Emerald, resume tudo isso numa tela só com o essencial ao acordar: como você dormiu, sua temperatura, sua frequência cardíaca de repouso, e uma ou duas sugestões do tipo “levante e se mexa” ou “hora de começar a rotina do sono”. A mesma pessoa já está usando uma versão beta do aplicativo enquanto testa o próximo anel da marca, o Ring Pro, que ainda nem foi lançado.

Já a Amazfit — marca chinesa da Zepp Health, sem relação nenhuma com a Amazon, apesar do nome parecido — foi descrita como uma alternativa mais barata a marcas como Garmin e Coros, com preços que vão de cerca de 370 a quase 600 dólares dependendo do modelo. Para quem treina de forma variada, o jornalista achou que a marca acerta (ela até tem parceria oficial com a Hyrox, competição que mistura corrida e força), mas a considerou distante do nível esperado por corredores mais sérios: os relógios da linha Cheetah usam linguagem de “queima de gordura” nas zonas de frequência cardíaca, um tipo de discurso que soa ultrapassado para quem treina para uma maratona.

E a Garmin lançou esta semana sua primeira pulseira sem tela, a Cirqa, por 199,99 dólares, vendida como alternativa sem mensalidade à Whoop, pulseira de monitoramento que cobra assinatura. Só que, nos primeiros dias, usuários descobriram que ver a frequência cardíaca em tempo real durante o treino — algo básico — exigia a assinatura paga Connect+, de 6,99 dólares por mês. A empresa reconheceu o problema publicamente e prometeu liberar o recurso de graça em poucos dias, o que soa ainda mais estranho quando se lembra que concorrentes como a Polar Loop e a própria Amazfit, com a Helio Strap, já mostram isso de graça.

Quem nunca saiu de casa

Fora do mundo dos aparelhos, uma coluna do New Yorker trouxe outro tipo de número que também mede gente: segundo o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos (a pesquisa anual Survey of Household Economics and Decisionmaking, divulgada em maio), 49% dos adultos com menos de 30 anos nos Estados Unidos moravam com um dos pais em 2025 — um salto de 12 pontos percentuais desde 2019, antes da pandemia. A imprensa reagiu com alarme: o Wall Street Journal chamou isso de “a pergunta mais espinhosa para pais de recém-formados: sua carteira ainda está aberta?”, e a revista Fortune citou um economista dizendo que o fenômeno vai remodelar casamento, filhos e a compra da casa própria.

O que me chamou atenção não foi o número em si, mas o título que o próprio colunista escolheu para tratar dele: “os filhos estão, mais ou menos, bem”. Não é uma negação do problema — é uma recusa em tratá-lo só como fracasso. Talvez precisemos disso de vez em quando: números que assustam quando ditos rápido, mas que pedem uma pausa antes de virar sentença sobre uma geração inteira.

Perguntas que ficam

Talvez você esteja se perguntando se isso significa parar de usar óculos inteligentes ou relógio de saúde. Não é essa a leitura. Nada aqui aponta para abandonar esses aparelhos — só para notar que cada um deles carrega, junto do que promete, uma pergunta sobre até onde vai o controle sobre a própria imagem e os próprios dados.

E o vídeo selfie, é seguro? As próprias empresas dizem que sim, com criptografia e prazos de exclusão. O que vale notar é que “seguro” e “sem uso posterior” nem sempre significam a mesma coisa — e isso está escrito, com todas as letras, nos próprios comunicados delas.

No fim, o que fica da manhã de hoje não é um aviso nem uma lista de coisas a evitar. É só essa sensação: vivemos cercados de aparelhos que prometem nos proteger de ser vistos contra a vontade, ao mesmo tempo em que outros nos pedem, com toda a gentileza, para entregar o rosto, o sono, a frequência cardíaca — tudo, de bom grado. Talvez a pergunta certa não seja se queremos ser vistos, mas por quem, e para quê. Essa, pelo menos por hoje, cada um responde sozinho.

Fontes

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